Síndrome de Tourette: sintomas, diagnóstico e tratamento

Sumário

A síndrome de Tourette é uma doença caracterizada por tiques, tendo recebido o nome do médico francês Georges Gilles de la Tourette, responsável por estudar pacientes acometidos por essa condição no século XIX, à qual chamou de “doença dos tiques convulsivos”.

Essa doença neuropsiquiátrica, em geral, é diagnosticada ainda na infância ou na adolescência, antes dos 18 anos de idade. 

Entre as pessoas na mídia que já revelaram ter recebido diagnóstico de síndrome de Tourette estão o participante do Big Brother Brasil 2023 e lutador do UFC, Antonio Jr., conhecido como Cara de Sapato, a cantora estadunidense Billie Eilish e o jogador de futebol britânico David Beckham.

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Em geral, a síndrome de Tourette é diagnosticada antes dos 18 anos.  Foto: Wander Fleur /Unsplash

Sintomas da síndrome de Tourette

Na maioria dos casos, a síndrome de Tourette manifesta sintomas leves e, com frequência, vão se tornando mais amenos e até escassos na medida em que a pessoa envelhece.

Apesar de o ato de proferir palavrões e termos obscenos de forma involuntária, chamado de coprolalia, ser o mais associado à condição, esse sintoma é, na verdade, raro entre aqueles que sofrem com a doença. Essa categoria refere-se aos tiques vocais. Podem envolver também gritos, grunhidos, assovios ou outros sons.

Os tiques motores são os mais frequentes, principalmente aqueles envolvendo movimentos involuntários nas regiões da cabeça e pescoço. Podem, ainda, atingir todo o corpo e apresentar diversas variações ao longo do tempo. Manifestam-se na forma de piscar excessivo dos olhos, ranger de dentes, caretas, entre outros.

É possível que a pessoa tenha, ainda, tiques sensitivos, que envolvem sensações nos ossos, músculos ou articulações, seja de peso, leveza, calor, frio ou vazio. Para alívio, o indivíduo executa algum movimento que, diferentemente do tique motor, é voluntário.

Esses sintomas são intensificados em situações de muita ansiedade ou estresse e se atenuam em ocasiões de relaxamento. A tentativa de reprimir os tiques costuma ocasionar efeito rebote, levando também à exacerbação dos movimentos involuntários.

Além dos sinais mais visíveis, pode ocorrer associação com déficit de atenção, hiperatividade, obsessões e compulsões. 

De acordo com a Tourette Association of America, a estimativa é que mais de 80% das pessoas diagnosticadas com a doença apresentem alguma outra condição neuropsiquiátrica, como transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, transtorno obsessivo compulsivo, deficiência de aprendizagem, ansiedade, distúrbios de conduta, entre outras.

O que causa a síndrome de Tourette?

Estudos ainda não identificaram uma causa única da síndrome de Tourette, mas encontraram fortes associações com fatores genéticos. Há também pesquisas apontando relação com neurotransmissores, em especial a dopamina. 

Segundo o professor Arthur Kummer, que atuou no Departamento de Saúde Mental da Faculdade de Medicina da UFMG, a doença é um transtorno neurodesenvolvimental. Em outras palavras, ela afeta aspectos do circuito cerebral que impactam no desenvolvimento motor, por isso é comum que se manifeste ainda na infância.

Também foram encontradas evidências de associação entre a síndrome e ocorrências como infecções e reinfecções no cérebro, traumatismo e intoxicação por algumas substâncias. 

Diagnóstico da síndrome de Tourette

O ideal é que o diagnóstico seja feito por um médico psiquiatra, o qual irá verificar os sintomas e analisar o quadro clínico. Avalia-se o  histórico de manifestação dos sinais antes dos 18 anos de idade, se esses são múltiplos e costumam aparecer em conjunto. 

Tanto os tiques motores quanto vocais devem estar presentes, não necessariamente ocorrendo ao mesmo tempo. 

Outro critério considerado é que os tiques acontecem várias vezes ao dia, de forma intermitente ou quase todos os dias, tendo duração de mais de um.

Como o diagnóstico é feito com base em critérios clínicos, não há exames laboratoriais ou testes de imagem ou psicológicos que possam confirmar se tratar de síndrome de Tourette. 

Por esse motivo, é importante descartar outras condições neuropsicológicas e verificar se a causa dos tiques não são resultado, por exemplo, do uso de medicamentos ou substâncias.

Por ser raro que a doença comece a se manifestar em idade adulta, Kummer alerta para a possibilidade de se tratar de um indício de alguma condição neurodegenerativa.

Estigmas e dificuldades da síndrome de Tourette

Devido aos tiques e ao fato de a síndrome ter início mais frequentemente na infância, pessoas que sofrem dessa condição enfrentam também o preconceito por conta do comportamento involuntário, visto por outros como estranho ou mesmo condenável, no caso de vocalizações de palavras obscenas. 

O estigma social em torno da síndrome pode fazer com que o indivíduo sofra bullying na escola ou entre amigos e desenvolva intenso retraimento motivado pela vergonha.

Isso leva a uma dificuldade de se integrar socialmente e pode afetar negativamente a saúde mental do indivíduo, resultando, não raro, em ansiedade ou depressão, conforme explica o professor Kummer. 

Além disso, como os tiques podem se manifestar por um determinado período e cessarem repentinamente, há pessoas que não procuram por auxílio psiquiátrico e não são diagnosticadas. Assim, a doença permanece subnotificada.

 

Tratamento para a síndrome de Tourette

A síndrome de Tourette é crônica, não tendo cura, apesar de, na maior parte dos casos, os sintomas se tornarem mais leves com o passar do tempo. 

Por ser uma condição que geralmente se manifesta na infância, o tratamento com psicoterapia auxilia no desenvolvimento de estratégias para lidar com a doença e seus efeitos no âmbito psicossocial. A terapia pode envolver técnicas cognitivo-comportamentais e de relaxamento, por exemplo.

Também a orientação de pais e familiares, informando sobre a síndrome e o estigma em torno dela colabora para que o paciente tenha uma melhora na qualidade de vida.

Indivíduos que apresentam formas mais intensas da doença podem precisar de tratamentos com fármacos que reduzam a ansiedade, a fim de aliviar os tiques. Os medicamentos mais indicados são antipsicóticos, também chamados neurolépticos.

O Manual MSD recomenda que medicamentos apenas sejam receitados a crianças quando houver persistência dos tiques e estes interferirem em suas atividades ou em sua autoimagem.  

 

Referências

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